Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Nestes dias que correm fazem-se estudos sobre tudo e um par de botas. Não devem andar longe os estudos blogosféricos.

A blogosfera reproduz, em tempo real e rédea livre, todos os grandes defeitos e virtudes da comunicação social dita convencional. Aliás, julgo mesmo que a grande virtude, uma liberdade absoluta, é apenas a outra face do grande defeito, a propagação desenfreada de mitos, rumores, boatos e quejandos a uma velocidade e com um alcance nunca vistos. Bem vistas as coisas, é apenas um formato diferente para um certo tipo de jornalismo (latissimu sensu) que há muito se pratica. Sim, porque a blogosfera está hoje verdadeiramente capturada pelo jornalismo e pelos jornalistas. É uma espécie de campo de ensaios para futuras matérias. Não há aprendiz de feiticeiro que se preze que não tenha o seu “cantinho” na rede. Ora para nos agraciar com os seus gostos eruditos (sempre, sempre muito eruditos), ora para destilar os seus ódios e frustrações pessoais, ora ainda para comentar “off the record” aquilo que não pode ou não quer escrever em “on”. Tem a vantagem, no caso dos que assumem a autoria, de se perceberem certas perspectivas jornalísticas.

É, também, muito curioso observar os vários epifenómenos que se vão gerando neste meio. Desde logo, a blogosfera está há muito dividida em classes. Ou castas. Há a classe alta, das elites jornalística, política, académica e afins. É um clube fechado, que se auto-alimenta, entre elogios de genialidade e ódios de estimação, todos eles facilmente enquadráveis nos vários sub-grupos em que cada um dos bloguistas se insere política, profissional ou socialmente.

Esta upper class bloguística é dominada em larga escala por jornalistas de toda a sorte; uns assumidos, outros nem tanto; por políticos, ora no activo, ora em trânsito de períodos de defeso mais ou menos prolongados; candidatos a jornalistas e a políticos. Há também uma fauna, normalmente em trânsito para as páginas de opinião dos jornais, que se destaca por um estilo quase sempre verrinoso, no qual facilmente se detectam os traços característicos de uma tão desejada carreira política. Ou apenas de opinador profissional. São quase sempre especialistas de qualquer coisa. Estes nunca são anónimos. Normalmente têm um político de estimação, sempre perseguido, a quem tecem loas que raiam o patético. Dentro deste sub-grupo há ainda que distinguir os que fazem este trabalho a mando do político propriamente dito, daqueloutros que o fazem de moto próprio, mas sempre na esperança de que a sua sanha pessoal chegue, de preferência depressa, aos ouvidos do político alvo. O político pode ser substituído por uma causa. Normalmente fracturante.

Esta malta fina começa por escrever da solo. Linkam-se uns aos outros durante algum tempo, tecendo os mais rasgados elogios mútuos. Identificam inimigos de estimação e entretém-se a zurzir uns nos outros, ora com grande elevação intelectual, que juram ser o único desiderato da contenda, ora, quando lhes foge o pé para a chinela, descendo aos tombos toda a escadaria social, com um estilo que nada deve ao carroceiro mais empedernido. Chega a ser bonito.

A páginas tantas, juntam-se uns quantos num clube exclusivo, tipo “menina não entra”, mas para intelectuais. Ora de esquerda, ora de direita. Identificaram laços comuns, ideais partilhados, gostos mundanos que julgavam só deles…nessa altura fundam um blogue colectivo, fazem juras de amor eterno, definem objectivos comuns, proclamam a liberdade de opinião como valor supremo e lançam-se numa aventura que crêem ter no sucesso estrondoso o seu único e óbvio destino. Até que se zangam.

 

To be continued.



publicado por Nuno Albuquerque às 14:52 | link do post | comentar

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